terça-feira, 6 de novembro de 2012

Soneto da Ignorância

Nos confins do ceticismo
Habita uma certeza
A ignorância predadora
Faz do homem fácil presa

Os conduz para o abismo
Com malícia e sutileza
Suave, dominadora
Os empurra com leveza

Duram anos caindo assim

O cérebro morto
O corpo vendo seu fim

Dormem sem sonhar
Até que um baque surdo

Encerra este absurdo

Felipe Menezes - 01/11/2012

domingo, 16 de setembro de 2012

Meu Eu e Eu

De manhã, durmo
Em seguida, vem o turno diurno
Na sequência, o noturno
Só então, descanso taciturno
É aí que sumo
Não atendo mais ao telefone
Vagueio pela casa sem rumo
Livre, leve e insone
Fazendo o que me dá na telha
Dando vez às minhas vontades
Provando o calor de uma centelha

De uma tal de liberdade
Madrugada adentro é assim
Me permito e desconcentro
Dispenso o centro, o norte e enfim
Ouço só o que vem de dentro

Converso comigo
E me conheço sempre um pouco mais
Fico cada vez mais meu amigo
Descobrindo o que me apraz
Então brindo com meu eu
E bebo por nós dois
Deitamos juntos no breu
E acordo sozinho depois


Felipe Menezes - 16/09/2012

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Transmutação

Não sou as roupas
Que camuflam o corpo nu
Sou muito mais

Sou a metamorfose de Raul
Não sou os cheiros artificiais
Sou o suor
E o fedor das coisas reais
Rótulos não me cabem
E os julgamentos, tão banais
Estes de nada valem
Pois amanhã não sou eu mais
Um peixe solto num mar revolto
Talvez tenha mais certeza
Sou um louco que acha pouco
Viver só uma natureza
Aqui estou. Mas este não sou.
Ou era? Não sei
De lá pra cá
Vai ver, já mudei


Felipe Menezes - 08/09/2012

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Chamas

Chamo-te em chamas
Num ardor
Que clama por minha dama
Fervo em cada nervo
E me aqueço
Contra o gelo da minha cama
De súbito, me levanto
Suado e farto de descanso
E tanto é meu encanto
Que meu pranto é um canto manso
Ecoa pelo lar
Numa nota de esperança
Dissipando pelo ar
O fogo ardente das lembranças

Felipe Menezes - 30/08/2012

sábado, 17 de março de 2012

Pai

Meu pai me ensinou tudo
Coisas de toda sorte
Amor, estudo
Música, esporte
Deu-me espada e escudo
Falou da vida e da morte
Ensinou-me a não ficar mudo
Saber ouvir
E falar com conteúdo
Falou de Deus
Buda, Alah, Judah, Zeus
Da pedra de Sísifo
Do fogo de Prometeu
Falou de Sócrates, Vinícius
Chico, Garrincha, Maurício
Dos prazeres e vícios
Da origem da vida desde o início
Consolidou meus princípios
Contou das tarefas e ofícios
A parte fácil e a difícil
E os valores dos sacrifícios
Formou minha mente cética
Ensinou-me a moral e a ética
A força da dialética
E as armadilhas da estética
Preciosos conselhos
Que me servem de espelhos
O amor no olhar do meu pai
Diz mais que mil evangelhos

Felipe Menezes - 17/03/2012

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

E se...

E se todo adeus
Fosse só um até breve?
Então toda avalanche
Seria só um floco de neve
Se toda revolução
Fosse só uma greve
Então todo poema
Só seria problema
De quem escreve
Se todo sofrimento
Se reduzisse a um lamento
Que gritasse por fora
E se curasse por dentro
Então toda mentira
Seria só brincadeira
E toda raiva, toda ira
Não mais que besteiras
Se toda destreza
Enchesse olhos e mesas
E toda beleza
Suprimisse a tristeza
Então a Terra seria
Uma mãe muito fria
Ausente à noite
Indiferente ao dia
Que não diz a verdade
E finge estar bem
Prefere a falsidade
E não ama ninguém

Felipe Menezes - 06/02/2012